“Chamo carácter de um homem à sua maneira habitual de ir à caça da felicidade” Stendhal

Posted: Quinta-feira, Setembro 18, 2008 in Pensamentos
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carácter

Na Priberam:

do Lat. character < Gr. charaktér

pl. caracteres

s. m.,

cunho especial que distingue as coisas entre si;
marca;
índole;
propriedade;
expressão ajustada;
natureza;
sentimentos;
feitio moral;
especialidade;
sinal de abreviatura;

No Wikipédia:

O carácter individual, na biologia e outras ciências biológicas (como antropologia, paleontologia, etc.), é o conjunto de características presentes no indivíduo e que o distingue de todos os outros ou os de outras espécies, grupos, etc.

Nem tenho muitas qualidades e sei que tenho muitos defeitos… mas não entendo o que leva as pessoas a serem pouco esclarecidas!!

A maneira como olho para os outros vai ao encontro da citação proferida no título. Nada mais nada menos como a forma como cada um procura a felicidade: os meios e ferramentas que utiliza para atingir um determinado fim.

As coisas passam exactamente por aí! É óbvio não estamos rodeados de pessoas só com bom carácter (o que é uma pena), pois ter falta de carácter parece uma prática comum entre os seres vivos, e o mais surpreendente é que a maior parte deles estão entre nós.

Passo a chamar-lhes “necarácteres“, ou seja, pessoas que negam a consciência do outro e que não olham a meios… sabem o resto!

Não me sinto verdadeiramente inspirada para escrever seja o que for, mas a revolta e a desilusão é tanta que rebento se não escrever estas linhas!

Pois para mim dar um passo, abrir os braços, bocejar, rir ou chorar sem olharmos à volta é puro EGOISMO!

Achármos que só os outros têm dividas para connosco, sem puxar pela memória e reconhecer os esforços que fizeram por nós é desprezo pela condição dos outros.

Quando falo em reconhecimento não é directamente pela pessoa que fez algo por nós, mas sim sermos “bons” para os outros por reconhecermos que um dia foram “bons” para nós.

Enfim… Nas amizades, o carácter é sem dúvida uma das características que me movimenta mais, portanto os “necarácter” para mim servem como repelentes… Afastassem-se de mim!!!

Ainda mais porque nas amizades eu dou tudo o que tenho. E por sorte tenho tido um saldo positivo, ao contrário do que muita gente apregoa! Mas no entanto acredito nas palavras de Bertrand Russell, na obra A Conquista da Felicidade, onde afirma que “Se a todos nós fosse concedido o poder, como num passe de mágica, de ler a mente uns dos outros, suponho que o primeiro efeito seria que quase todas as amizades se desfariam. O segundo efeito, entretanto, poderia ser excelente, pois um mundo sem amigos seria sentido como intolerável, e nós teríamos de aprender a gostar uns dos outros sem a necessidade de um véu de ilusão para esconder de nós mesmos que não nos consideramos uns aos outros pessoas absolutamente perfeitas. Sabemos que os nossos amigos têm as suas falhas, e que apesar disso são pessoas de um modo geral aprazíveis das quais gostamos. Consideramos intolerável, no entanto, que tenham a mesma atitude connosco. Esperamos que pensem que, ao contrário do resto da humanidade, nós não temos falhas. Quando somos compelidos a reconhecer que temos falhas, tomamos esse facto óbvio com demasiada seriedade.”

Por isso é importante termos consciência que apesar de não conseguirmos telepaticamente adivinhar o outro podemos olhar para ele como um outro EU e desta forma rejeitar qualquer tipo de ofensa e inimizade, que nós também não tolerariamos.

Quando se fala de relações amorosas, as coisas complicam-se. Talvez pelo facto de nunca acharmos que o outro se vai cansar verdadeiramente de nós. O que é um erro… pois é a pensar assim que nos aproximamos dos namoros falhados e indigestos.

Normalmente acusam-nos (nós as mulheres) de sermos complicadas e nós acusamos os homens de simplistas de mais! Mas o que me irrita é que no final de uma relação as mulheres sofrem assim como os homens. E não éfalo de sofrer pelo outro ser a pessoa que mais amávamos. Pois pode-se sofrer pela incapacidade de amar, de não conseguirmos dar ao outro aquilo que as suas espectativas aguardam.

E depois… Depois vem a mágoa, as ofensas, o despreso e a insatisfação. Aquele que é rude e sem carácter acha-se o maior por estar a pisar quem um dia lhe deu a mão, o braço, enfim o corpo inteiro, e o outro fica a achar que foi tempo perdido. O que ganham ambas as partes!??

EGO!?  Ego é para os egoistas, para os pouco humildes. Valorizarmo-nos é um dever com nós mesmos, humilhar os outros é pura depravação.

Vergílio Ferreira escreveu um dia que “o que une uma mulher a um homem não passa por nada do que aparentemente vale. Passa por onde? Não, não: pode não ser por aí, embora seja fundamentalmente por aí. Porque mesmo aí outros poderiam cumprir melhor, com o acréscimo do resto. Há uma falha (uma falta) essencial na mulher que só um certo homem pode preencher. E não é necessariamente essa. O mais misterioso no domínio das relações é o que se situa nas relações amorosas. Ou seja no que há de mais íntimo, essencial, primeiro do ser humano. Um labregório qualquer, torto, bronco, cabeçudo, pode ser amado pela mulher mais divinal e inteligente e ilustrada e refinada de figura. Haverá, pois, para o homem dois mundos que não comunicam entre si e que se separam na porta do quarto. Poucos são os que a atravessam em glória — idos da rua ou para a rua.”

Se olharmos à volta e se tivermos consciência (sem cair no profundo altruísmo) que precisamos tantos dos outros como eles precisam de nós, podemos dar e ganhar muito. É verdade que para os mais dependentes da moeda de troca é pouco o que se ganha, porque não reluz, não pesa e não tem valor comercial, mas é muito mais valioso garanto.

Por isso meus amigos perdoem-me as falhas!

Este ano no Andanças estavam duas pequeninas, não deveriam ter mais de seis anos, cada uma com uma placa presa ao pescoço que pendia sobre os pequenos troncos e dizia o seguinte “Um abraço por dia não sabe o bem que lhe fazia”. Quem se atrevesse a despir de preconceitos e fosse abraçar qualquer um dos pequenos anjos ouvi das suas bocas inexperientes algo que alguém lhes ensinara “Para receber é preciso dar”. Foi dos abraços mais valiosos que recebi e por esse mesmo motivo dei um abraço a outra que estava ao lado.

Ana Coelho

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