Sim à vida, contudo, sim à morte

Posted: Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009 in Pensamentos
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eutanasiaEutanásia… estamos sempre a debater assuntos que deveriam de dizer respeito a todos os cidadãos. As perguntas são simples, mas irei colocá-las mais à frente!

A Comissão reunue-se, hoje, para debater este caso. Contudo, não há nenhum índice de que será feito algum tipo de reforma à legislação sobre o prolongamento artificial da vida ou sobre morte assistida em Portugal.

Porquê este tema agora!? Por causa de Eluana Englaro, que há 17 anos sofreu um acidente que a deixou em coma vegetativo e que Segunda-Feira faleceu com ajuda de uma equipe de médicos.

Neste momento, a Ordem de Médicos de Udine (norte da Itália) pretende abrir um processo disciplinar contra estes médicos que foram voluntários para ajudar esta jovem a morrer, suspendendo-lhe a alimentação e a hidratação.

Na Europa, apenas na Holanda e na Bélgica a eutanásia é legal. Na Itália, França, Suíça, Grã-Bertanha, Alemanha, Áustria, Espanha a eutanásia não é legar, mas aceita-se uma espécie de “deixar morrer”.Este conceito vai desde o direito a rejeitar os cuidados médicos, administração de uma sobre dosagem (letal) de um medicamento, que o próprio paciente deve tomar, interrupção de tratamentos médicos e desligar os aparelhos.

Aqui está um conceito que não entendo… “Deixar morrer”, mas isto não é bem mais penoso!? Nem as plantas deixamos morrer, sabemos que se lhe não lhes dermos cuidados que sofrem (à maneira delas), é quase como abandonar um animal de estimação que está habituado aos cuidados de uma família e depois o largam à beira da autoestrada. Isso é deixar morrer, é esperar o inevitável.

Em Portugal e porque nós somos “NHURROS” a eutanásia e o suicídio assistido são considerados pelo código penal como homicídio e segundo o Código Deontológico dos Médicos “a utilização de meios extraordinários para manter a vida” podem ser interrompidos em caso de morte cerebral ou a pedido do doente, mas em hipótese alguma a hidratação e a alimentação do paciente podem ser suspensas.

Realmente em Portugal a situação é escabrosa! É claro que por proximidade é a que me afecta mais. Num país onde a saúde está num estado lastimável, podemos considerar “deixar morrer” ao que acontece nas salas de espera dos hospitais e dos centros de saúde. Se virmos bem, quantas pessoas vão ao hospital e são mandadas para casa que acabam por falecer por ausência médica!? Ok, pronto! A isso chamamos negligência médica. Quando fechamos hospitais, maternidades e as pessoas quase agonizam a chegar aos hospitais, não é também o “deixar morrer”?  Quando se privatizam os serviços públicos que durante anos pagamos os impostos, mas que de nada serviu pois tenho que ir ao serviço privado de saúde, mas não tenho dinheiro e acabo por padecer do mal durante anos, pois no serviço público apenas posso ser operada após três anos de me ter sido diagnosticada a doença.

Na Grécia e na Roménia, que a meu ver sempre competiram connosco em burrice, a eutanásia e a assistência ao suicídio é punível pela lei e pode ir até sete anos de prisão. Assim como na Bósnia, Croácia e Sérvia que consideram as duas práticas como homicídio, o que até me parece ridículo, pois estes países contam com alguns anos de massacre, guerra e destruição. Portanto, matar gente à bala são danos colaterais, alguém estar em estado vegetativo e a sofrer é homicídio, pleasssssse!

Agora pensemos: Não sabemos bem, a nível espiritual, como se encontra uma pessoa que está em coma vegetativo. Será que compreendemos  o tema que se está aqui a tratar?

eutaNinguém gosta da morte, pelo menos ninguém normal, todos sofremos quando perdemos pessoas que amamos, mas será que não somos responsáveis pelo sofrimento delas e pelo nosso sofrimento.

Pode parecer uma comparação estúpida e completamente descontextualizada. Todos sabem que amo os animais e pouca distinção faço entre eles e os seres humanos (pois só a inteligência e a idiotice nos faz ser diferentes), mas o meu cão, o meu melhor amigo com 15 anos começou a ficar doente… velhice… Apesar de me custar a falar neste assunto, pois para mim ele foi, e é (se me permitem), da família, não pude ser egoísta no momento em que a veterinária me disse que ele não duraria muito mais e que a partir dali ele iria entrar em sofrimento.

Porra! O que fazer!? Tinha todo o amor para lhe dar, queria ter passado muito mais tempo com ele, mas ele ia agonizar só para que eu pudesse aproveitar a sua companhia! Não merecia ele o gesto máximo de dar-lhe a dignidade de não sofrer!? Pensar que ele iria sofrer era sem dúvida a pior coisa que eu poderia imaginar. Eu devia-lhe isso… Mandei-o eutanasiar! Chorei muito, tive imenso medo, senti demasiado vazio.

Pelo obstáculo de comunicação, de não falarmos a mesma língua, ele não me podia dizer o que fazer. Era tudo o que eu queria, que me dissesse o que fazer: o que preferia. Não sendo possível tive que parar de pensar em mim e na minha dor.

Ainda hoje sofro com isso, penso muitas vezes se ele não terá achado que o estava a abandonar, a desistir dele, mas ele sabe (espero que saiba, são 15 anos de convivência) que o amava muito, que jamais abdicaria dele se não fosse por amor.

Portanto, agora que as lágrimas já me lavaram a cara e que as saudades me invadiram, eu só consigo pensar que temos mais respeito pelo sofrimento dos animais do que pelo sofrimento Humano. Por mais que eu ame os meus, que eu sinta constantemente a sua falta, jamais iria permitir que numa situação de limite, numa situação de “já não há nada a fazer” se perpetue a dor do paciente e dos familiares, por razões de ética e deontologia que só servem para limpar o nome daqueles que faltam ao respeito com o Mundo.

O que custa mais: Dormir sabendo que demos paz e descanso a outro ser humano e sua família, ou que estamos sadicamente a manter “vivo” um sofrimento e um desespero?

A meu ver “deixar morrer” é muito pior, menos ético e muito penoso! É como vermos um acidente de carro de uma pessoa que amamos em camera lenta e sabermos que nada podemos fazer.

E quanto à ameaça da Igreja de escomungar estes médicos, que a meu ver fizeram o seu trabalho (ajudar as pessoas em momentos de agonia) que se dane. Escomunge também a mim, pois eles são culpados por muitas guerras no mundo, por muitas mortes, torturas e horrores que a História nos conta!

Muitas pessoas tinham preferido a eutanásia do que passar pelas mãos da Inquisição!

Sou a favor da EUTANÁSIA

Texto em memória do soestrova – amo-te muito para sempre.

Ana Coelho

Comentários
  1. João Carlos diz:

    Cara Ana, por causa da situação da Eluana, também eu fui levado a procurar mais informações sobre a eutanasia e a reflectir mais sobre o assunto…
    Deparei-me por acaso com a tua pagina e achei interessanteo texto.
    Envio-te um texto de um colega meu que ainda hoje causou uma acalorada discussão na aula de direito penal:

    Eutanasia v.s Casamento homossexual

    Ao lerem o título desta crónica, naturalmente que vos vem a cabeça perguntas do tipo: Que raio tem a ver uma coisa com a outra? O quê que o suicídio assistido tem a ver com a legitimação perante a lei dos homens de uma relação amorosa entre duas pessoas do mesmo sexo? Talvez nada. Talvez tudo.

    A abordagem simultânea que faço a dois temas tão distintos e polémicos nas sociedades actuais não é de todo inocente. Numa semana em que acompanhamos a situação de Eluana Englaro, uma mulher Italiana que após 17 anos ligada às maquinas em estado vegetativo e 10 anos de infindáveis batalhas politicas, religiosas e judiciais, viu finalmente confirmado pelo supremo tribunal Italiano “o seu direito à morte assistida” e onde ficamos a conhecer a intenção do secretário-geral do PS e Primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, em levar ao congresso do seu partido uma moção de orientação política onde propõe “a remoção de barreiras jurídicas à celebração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo”, dei comigo a pensar seriamente nesses dois assuntos sérios, assistindo as discussões infindáveis que esses temas fracturantes normalmente fazem eclodir nas sociedades de hoje e observando mais uma vez as ligações perigosas que ainda persistem entre a politica e a religião. Como normalmente faço nas poucas vezes que penso seria e profundamente em algum assunto serio, vesti a pele das partes interessadas e cheguei à conclusões “interessantes”:

    1 – Se eu fosse um gay ou uma lésbica, de certeza que me agradaria muito poder usufruir do direito que qualquer pessoa tem nas sociedades civilizadas de se casar com quem bem lhe apetecer, seja por amor, pela atracão física ou até mesmo pela atracção financeira.

    2 – Se eu estivesse confinado a uma cama de hospital durante alguns anos, como consequência de um azar qualquer que tivesse na vida (toc, toc na madeira) ligado às maquinas em estado vegetativo, sem esperanças de recuperação e aguardando pacientemente o dia da minha morte, toda a minha alma agradeceria profundamente à pessoa que generosamente pusesse fim a esse sofrimento e acabasse com o desgaste físico e mental a que estaria sujeito, “libertando” também a minha família e amigos mais próximos desta pesada cruz.

    3 – Se eu fosse um politico populista numa sociedade conservadora, um membro efectivo ou simples adepto ferrenho de uma qualquer religião, apegado aos dogmas bíblicos ou apenas um cidadão tacanho que se recusa a aceitar as mudanças sociais que têm acontecido no nosso dia-a-dia, com certeza que abominaria a ideia de duas pessoas do mesmo sexo poderem ver a sua situação de união “anormal” amparada nos braços da lei.

    4 – Se eu continuasse a ser o mesmo politico populista numa sociedade conservadora, o mesmo membro ou praticante ferrenho de uma qualquer religião, de certeza absoluta que defenderia solenemente a premissa suprema de que só devemos deixar esse mundo quando e como o SENHOR entender e nunca antes da altura “marcada” e muito menos por interferência de outro qualquer pecador. Ah, se eu tivesse um familiar próximo ou um amigo chegado confinado a uma cama de hospital, ligado a uma máquina sem hipóteses de recuperação, de certeza que travaria dentro de mim uma luta acesa entre o “aceitar” que se terminasse com o seu sofrimento, mesmo a pedido dele e o “lutar” para que ele se mantivesse vivo, mesmo em situação precária, apenas para suprir o desejo egoísta que todos temos de querer ter as pessoas que nos são queridas perto de nós e entre nós.

    Como sempre acontece quando nos “metemos” na pele dos interessados em questões de consciência, acabamos por não chegar a conclusão nenhuma, porque cada um tem os seus motivos, as suas crenças, os seus interesses e as suas próprias experiencias para sustentar o seu ponto de vista ou a sua intransigência. Eu pessoalmente acho que nas duas situações em análise, por se tratar de questões de consciência, acima das politiquices e dos dogmas caducados da igreja, devia prevalecer o nosso livre arbítrio, sustentado naturalmente na premissa maior de que “ a nossa liberdade termina onde começa a do outro”. Podemos não concordar com o casamento homossexual, ou melhor, podemos até não achar muita piada à relação homossexual em si, mas temos que aceita-la como facto consumado nos dias que correm e respeitar os que seguiram por essa via. Podemos achar eticamente imperdoável que uma pessoa em qualquer circunstancia possa por fim a sua própria vida ou pedir a outros que o façam por ela, mas temos que entender que há momentos especiais na vida em que a própria vida torna-se sofrida e sem significado, por isso temos que aceitar e respeitar que o “dono” dessa vida decida acabar com ela como forma de por fim ao seu sofrimento.

    Naturalmente que não defendo o livre arbítrio cego e desgovernado, porque como seres sociáveis, não seriam raras as situações em que o nosso livre arbítrio fatalmente acabaria por entrar em colisão com os direitos de outrem ou com as regras instituídas, logo, nos dois assuntos em questão, caberia aos políticos, deixarem de lado a hipocrisia e definir as regras que levassem as pessoas a poderem optar por aquilo que mais lhes conviesse em cada um dos casos. Se é ponto assente que cada vez mais há casais homossexuais assumidos, se muitos inclusive já começam a “juntar os trapinhos”, porque não lhes dar o direito de ver essa relação reconhecida perante a lei? Se há casos de pessoas em estado vegetativo que acabam por falecer repentinamente em circunstancias obscuras, por conta da piedade de um medico ou enfermeiro, porque não permitir de uma vez por todas que essas pessoas tenham um final de vida digno? Por que não definir regras para evitar os equívocos que as vezes acontecem e que custam a vida de muitos que se calhar foram mal diagnosticados e careciam de uma segunda opinião competente? Porque continuar a tapar o sol com a peneira e fazer de conta que nada se passa?

    Foi assim na questão do aborto, que mesmo proibido por uma lei conservadora e moralista, acontecia em cada clínica clandestina desse País em condições precárias e continua a acontecer em cada clínica clandestina desse mundo fora, nos Países onde os políticos ainda não foram “iluminados” para perceberem que a melhor solução para esse fenómeno é a sua legalização e o estabelecimento de programas de informação e acolhimento para evitar as milhares de mortes e os inúmeros problemas que padecem as mulheres que recorrem a esses lugares.

    È assim na questão da prostituição, que mesmo “proibida”, continua a proliferar em cada cidade e bairro desse País, enriquecendo pessoas de má índole e permitindo também o aumento de “mazelas” sociais como o tráfico de mulheres, o tráfico de droga e as doenças sexualmente transmissíveis. Todos sabem que a prostituição existe, deparamos com ela nas páginas dos classificados dos jornais, nas ruas, em bares de alternes e em casas de striptease, então porque não legalizá-la de uma vez por todas? Porque não transformar essas mulheres e homens em trabalhadores honrados que cumpram com as suas obrigações fiscais como todos os outros contribuintes? Porque não regulamentar o sector de forma a acabar com os “chulos” e instaurar a obrigatoriedade da inspecção médica?

    Pese embora os conflitos de ordem moral que possam existir nas questões que frisei, penso que seria de todo útil que houvesse coragem politica para regulamentar aquelas situações que temos como casos consumados, de forma a evitar que as pessoas continuem a agir fora dos braços da lei e permitir que cada um possa optar por aquilo que quer, de acordo com a sua consciência.

    Legalizou-se o aborto e quem é contra o aborto pode continuar a ser contra, resguardado nos seus princípios éticos, mas deu-se hipótese aos que são a favor de poderem optar por uma saída segura. Legalize-se então o casamento homossexual e a eutanásia. Os que são contra, poderão continuar a ser contra, bastando que se abstenham de exercer esses direitos, mas ao menos daremos aos que estão a favor o direito de poderem optar sem estar a cometer nenhum tipo de crime. Creio ser esta, a essência da cidadania.

    Wuando Castro in http://www.bocapito.blogspot.com

  2. sara santana diz:

    quando pensamos que uma coisa não tem nada a ver com outra e pensamos até ao fundo da questão eque vemos que pode estar tudo relacionado

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