Suave perfume dos estudos

Posted: Sexta-feira, Janeiro 15, 2010 in Pensamentos
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O ano lectivo tinha-se iniciado com uma tentativa de decorar o nome das disciplinas que eram bem grandes.

Éramos apenas uns caloiros tenrinhos sem sabermos ao certo o que iria ali acontecer nos próximos cinco anos que se seguiam.

Sentados nas salas de aula começamos a sentir um cheiro doce no ar…

… com uma postura calma, um olhar meigo e um sorriso que despertava por entre os pelos das barbas muito brancas com um cachimbo empoleirado entre a pressão dos lábios,  estava um dos nossos novos professores.

Seu nome Manuel Viegas Tavares e iria ser o nosso professor de Introdução à Antropologia e mais tarde nosso professor de Antropossociologia. Sem querer entrar muito na explicação a Antropossociologoa  é um ramo da antropologia que trata das relações entre os grupos naturais e os tipos de civilização.

Com leituras de M. Titiev, Viegas Tavares introduziu-nos num mundo que para muitos era novo e onde conceitos como Pitecantropos Erectus  e Homem de Cromanhon passaram a fazer parte do vocabulário.

As suas aulas eram deveras interessantes, a matéria era sempre dada introduzida nas suas experiências de quando fazia estudos antropológicos junto de comunidades africanas e outras.

Os “sócios” como ele costumava chamar aos nativos dessas comunidades era sempre motivo de riso por parte dos seus alunos.

Durante os anos de licenciatura se houve algo que nos acompanhou foi o suave cheiro de cachimbo que trazia sempre consigo e que perfumava o ambiente frio do Instituto Piaget, para além de ser uma pista para os seus alunos pois sabíamos sempre que ia haver aula.

Mesmo depois das cadeiras feitas havia sempre um tempinho para o seu interesse pelos alunos, para nos perguntar sobre os nossos projectos, metas e ambições. E claro contava-nos uma pequena história onde os “sócios” eram sempre personagens principais.

A última vez que o vi foi finais de Agosto principio de Setembro quando me desloquei ao Piaget para ir pagar um certificado de notas para o mestrado. Lá estavam os três professores emblemáticos do meu ano (Prof. Viegas Tavares, Prof. José Garrucho e o Prof. Amílcar Couvaneiro) que aproveitavam um intervalo para meter a conversa em dia. Relembro que o professor Viegas Tavares olhou para mim e disse: “Olha quem é ela? Como anda? Já tem trabalho?” sempre com o seu sorriso simpático entre os lábios.

Depois de explicar o que andava a fazer no mundo Cooperativo e de lhe explicar que estava ali porque ia iniciar um mestrado, mostrou-se contente. De seguida perguntou-me “Então e como vai o seu colega Áureo?” Naquela simples interrogação percebi que para o Professor Viegas Tavares não éramos apenas só mais uns alunos, ele sabia quem éramos e conhecia parte das nossas vidas…

Naquele dia jamais me teria passado pela cabeça que nunca mais o iria ver.  Ontem à noite com um grupo de amigos soube a notícia e senti que uma parte de mim se tinha findado ali… Fica sempre aquela sensação de que ficou algo para dizer, tal como um “obrigado”.

Sinto-me triste e ganho coragem para ir hoje ao Piaget para a sessão em sua homenagem. Na minha memória fica um recorte de um número do Jornal do Piaget onde aparecia o Professor ao leme do barco do Piaget com o seu fiel amigo entre os lábios.

Um bem haja professor e continuará sempre na nossa memória.

desta “sócia”

Ana Coelho

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